segunda-feira, 5 de maio de 2008

PQP NO CQC!

Já se falou muito do CQC. É só botar no Google. Semana passada eles deram mais uma bola dentro. Agora, na Feira do Livro que rola em Buenos Aires.

Genial o fato que eles exploraram: o stand da Embaixada dos Eua não tinha livros! Repetindo: na Feira do Livro, a representação do país mais "Aprendiz" do mundo, não levou livros.

Apenas um foguete meio megalomaníaco, cadeiras e tevês. Nada mais perfeito para exemplificar o amor e a humanidade americanas com relação à cultura, ao subjetivo e ao lúdico.

Então lá foram os rapazes do CQC e , numa movida igualmente genial, chegaram no stand de Cuba, repleto de livros, e pediram alguns emprestados para ajudar ao primo rico, sovina e gordo traído americano. O pessoal responsável pelo stand cubano aproveitou e ofereceu um montão de obras.

Livro cubano, no c...do americano.

Para ver o vídeo (ainda nao está no Iútubo).

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Bonitinho, mas...


É muito complicada a relação entre mercado e alma. É a velha discussão entre a flexibilidade de caráter e venda dos ideais. Mas tem gente que , embora participe e ajude a roda a girar, tenta seguir os seus princípios. O ator George Clooney é uma dessas pessoas. Muito se fala dele como galã, mas pouco se fala como um pequeno vírus que de vez em quando deixa Hollywood um pouco doente.

E talvez seja por esse lado mais comercial que ainda tem bala na agulha para produzir obras muito boas, diria fundamentais, que vão contra a corrente do pensamento cinematográfico americano.

Geralmente não têm sucesso de bilheteria. Não sei por decepção do público, que vai ao cinema esperando algo de sua cara bonita e charme. Não sei se porque os projetos que faz são muito críticos ou difíceis para a mente serena dos expectadores reacionários. Fato é que, mesmo na adversidade financeira de suas producoes, segue na batida. Incomoda.

Abaixo alguns filmes do astro que merecem respeito e serem vistos.

Boa Noite, Boa Sorte: Quase um libelo anti-anti comunismo, uma crítica contundente ao Mcartismo dos anos 50. Usa um programa chamado See it Now , comandado pelo jornalista Edward Murrow. O filme é tenso, preto e branco, com uma luz esfumaçada, como se tivéssemos dentro dos tempos difíceis e nebulosos da época. No entanto, fala do passado alfinetando o presente político americano. Feito de diálogos profundos, sérios e da interpretação contida e magistral de David Russell Strathairn. Obra-prima.

Leatherheads: lançamento mais recente. Risco de George Clooney como diretor e produtor. Conta a história do início do futebol americano, quando ainda era feito de heróis mineiros, pobres e bêbados. Bem longe da indústria bilionária que é hoje. Resolveu fugir de uma provável formato épico e emotivo. Transformou o filme num interessantíssimo estudo estético, uma comédia muito bem desenhada, passada nos anos 20, com trilha sonora muito bem encaixada e linguagem leve e criativa.

Syriana: Atua e produz. Drama político que expõe sem vergonhas a indústria do petróleo americano e sua relação suja com alguns países produtores do Oriente Médio. É um filme para se ver três vezes para absorver integralmente o raciocínio dos personagens. Na linha da crítica aos detentores do poder americano (políticos, a CIA e empresários, principalmente). Matt Dammon mostra seu valor.

Confissões de uma Mente Perigosa: dirigido por ele também. Conta a história do homem que inspirou Silvio Santos e, por sua vez, quase todos os brasileiros, com seus programas populares apelativos e inescrupulosos: Chuck Barris. Clooney se virou muito bem ao mostrar uma personalidade complexa, de grande importância e histórias controversas. É um drama forte, experimental e de ótima qualidade.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Kravitz Ressuscita



Lenny Kravitz é um artista que, apesar de ter a imagem extremamente associada ao vazio fuxiquê do showbiz, ainda vota na arte.

Embora tenha escorregado num romantismo pop e sem sentido nos últimos anos, sempre deixa o sangue musical aparecer esporadicamente. Seja em faixas excelentes perdidas em discos mortos ou na busca real e válida por sua identidade artística.

Esse ano lançou mais um disco (It's time for a love Revolution) e , parece, respirou e voltou a fazer música. O álbum tem boas levadas de rock, um romantismo comedido nos arranjos e o pulso que o fez surgir na cena.

É interessante, porque Lenny é um mosaico muito bom de outros artistas. Nao é uma cópia mal-feita. Pelo contrário.

Então, para quem quer entender o cara, a sugestão é escutar:

Commodores: no romantismo e na incrível semelhança de algumas músicas, como Sliperry when Wet (essa é inacreditavelmente Kravitz há 30 anos).

Jimi Hendrix: na guitarra incipiente, num princípio de admiração pela distorção.

Prince: pela referência estética, pelo bissexualismo atraente, pelos vocais iguais.

Stevie Wonder: pelo multi-artista que toca e arranja tudo, pelos vocais e agressividade em algumas músicas (da fase mais política do stevie).

E os brancos nessa influência?

Bem, ao que ainda consta, Lenny continua preto.


segunda-feira, 28 de abril de 2008

40 ANOS HOJE

Foto Site Paulinho da Viola


Não há muito o que falar sobre o que ainda não se aprendeu a escutar. Pelo menos para mim, falta um longo percurso no caminho de sentir com plenitude sua arte. Se o tempo dele é sempre hoje, o contrario ao comemorar seu passado.

Em plena revolucao metafísica, espiritual, musical, física do mundo, das instiuicoes do mundo, há 40 anos, Paulinho da Viola lançava dois discos de complexidade sem-tempo, que é o tipo da complexidade do samba e no que ele transformou o samba.

Na primeira parte do ano, um dueto fundamental com Elton Medeiros, no clássico e magistral “Samba na Madrugada”. Depois, o lançamento do seu primeiro disco solo, intitulado simplesmente “Paulinho da Viola”.

“Na Madrugada” é uma curva um pouco radical no trabalho do artista, que antes mostrava sua vocação no grupo A voz do Morro, baseado em chorinho e arranjos mais tradicionais. Junto com a musicalidade mais popular e bruta de Elton , no entanto, encontrou uma terra fértil e amorosa para o seu lirismo escondido. O violão jazzístico junto com a caixa de fósforo. Era um indício genial da transformação que geraria.

Depois, já sozinho, lança um novo tipo de sonoridade, ao agregar uma harmonia meio bossa nova com um trabalho mais refinado dos elementos musicais. Não era só a voz suave. Todos os instrumentos trabalhavam para polir a alma da samba. A herança do choro, a influência de seu pai , a de Elton e a da vida nos morros confluíam nos dedos do homem . Faz poesia, faz prosa , música e crônica como uma coisa só. Sem tempo, no tempo hoje e universal de suas mãos de artesão. Tudo como um sussurro, como silêncio.

"Sem melodia ou palavra, para não perder o valor".
O valor da gratidao que os brasileiros devem a um de seus gênios.


sábado, 26 de abril de 2008

Aspira Lugo


por Bruno Moreno

É batido, mas quando se sai do Brasil e se conhece um outro país da América Latina, fica clara a distância que existe entre ele e o resto. A língua é uma desculpa pouco criativa, já que não existe diálogo nem culturalmente falando (consumimos o inglês, mas não o espanhol). É triste, porque o Brasil está sozinho nisso, já que todos os outros países sabem o que passa com o outro. Desde a história até os pequenos costumes. Estão se tocando constantemente, mas não sabem nada do Brasil, exceto que é um gigante isolado. A imprensa tupiniquim, a escola e os meios intelectuais acham que América Latina não é pauta. Se acham, não agem como.

Econômica e politicamente, no entanto, há uma maior aproximação. O mercosul anda a passos lentos, mas anda. A última pelea entre Colômbia e Equador provou que tamo e junto e misturado na questão da manutenção da soberania e da irmandade. E, por mais desentendimentos que haja, a questão do gás obriga a uma conversa entre presidentes. Mas é pouco. E, quando há uma ação mais conciliadora, a IBR (Imprensa brasileira reacionária), evoca o imperialismo armado (da última vez que o Moralez tentou nacionalizar o gás e o governo brasileiro usou da diplomacia, a Miriam Leitão só faltou chamar o Lula de frouxo por não invandir a Bolívia e obrigá-los a comercializar ou botar a Petrobrás. Ou seja, no mais claro "pimenta nos olhos dos outros / chegou nossa vez de explorar outra nação").

E essa integração tem mais um desafio agora.

O Paraguai não é o Acre. Ele existe e não é café-com-leite no pique-esconde. Está vivendo uma fase importantíssima agora. Fase que todos os brasileiros deveriam acompanhar para diminuir um pouco mais esse isolamento, que é burro e pode jogar contra. Mas a IBR continua achando que as prévias dos democratas nos Eua é a coisa mais importante do mundo e a Isabella continua com a alma inquieta de tanta arbitrariedade.

Com novo presidente, o Paraguai tem a chance de sair do ocaso e ser parte integrante e efetiva da pauta política da Am.Latina. O novo presidente vem com muita carga, tanto para as dificuldades e quanto para as mudanças. Fernando Lugo vem com a "p" do aspira de diminuir a corrupção e a pobreza gigantes do país, de lidar com uma oposição que sugou mais de 20 anos da presidência, de fazer reformas políticas e jurídicas importantes, de resolver a pendenga do gás com Brasil (Lula diz que não quer nem saber. O Celso diz que vai ver) e Argentina (Cristina disse que está toda ouvidos), de conciliar sua vocação eclesiástica e etéreas com ações bem concretas e humanas, e devolver a confiança e orgulho à população que, em sua própria fala, "historicamente é feita de guerreiros". Lugo está sendo visto com grande expectativa pelos paraguaios. Uma espécie de Lula com fala mansa e óculos de alguns anos atrás.

Ele deu uma boa entrevista para o canal TN aqui da Argentina essa semana, no programa El Juego Limpio, apresentado por Nelson Castro (vídeo da entrevista). Vai abaixo algumas falas.

História e Futuro

Não estou afiliado a nenhum partido político. Minha vida política sempre foi atrelada à luta com grupos campesinos, indígenas e movimentos sociais. Minha família, no entanto, sempre teve uma história de luta social e política intensa no Paraguai. Fato é que, se dediquei mais de 30 anos a Deus, por que não posso me dedicar 5 anos ao meu país?

Vocação religiosa

Tem sido muito dificil para mim ter largado o sacerdócio. E não consigo deixar de esconder a tristeza com o Vaticano (nota: o Vaticano o suspendeu das atividades eclesiásticas. Mas ainda estava rolando a negociação. Até o momento desse texto, a Igreja não havia dado a decisão final). Fui chamado por alguns de o bispo rebelde. Mas respeito e entendo a decisão do Vaticano. É a Igreja que amo e seguirei suas ordens.

Tenho uma admiração imensa por João Paulo II. E sei que ele teria entendido minha decisão. Porque foi o principal porta-voz da harmonia entre as diferenças, do amor mesmo que se partilhe visões diferentes. Ele sabia e me ensinou que nenhuma igreja e religião têm o monopólio do Espírito Santo.

Governabilidade

Há que se conversar com todos os grupos políticos. Sei que vai ser um desafio. Mas sempre vou dialogar. Não fiz promessas demagógicas ao povo paraguaio. Sei das dificuldades e que as coisas se resolvem em anos. Mas prometi lutar por mudanças e pela cidadania de todos. E nos dói essa fama de país corrupto. Sei que a estrutura não é quimicamente pura, mas vamos governar com transparência.

Energia

É um tema central no nosso governo. Vamos lutar para que tenha um preço justo. Pelo preço de mercado.

Sobre o fato de Lula não negociar os preços: há que pensar na integração, na coalizão. Sei que depois de passar essa fase de adaptação vamos sentar e ter um diálogo racional, sereno. E com compreensão.

Reeleição

Não vou me candidatar novamente.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Dor, educação, JN e Isabella


Muitos autores estão se debatendo atualmente para definir, enquadrar, nomear a sociedade, o tipo de sociedade, se é mesmo sociedade, o período que vivemos. Com a imediatização de tudo, por consequência com o movimento da história indo cada vez mais para o presente quase-futuro das coisas e dos homens, está se alterando (ou já se alterou) a hierarquia, o tempo e a importância de "lugares de educação" de um indivíduo.

Roubando um diálogo que tenho com uma amiga , vejo que a escola sempre se comportou como uma ferramenta de intermediação da concepção do mundo, com o entendimento desse mundo. Se o mundo atual é o "sendo" e não o "sido", nossa discussão, entre outras coisas, está na capacidade da escola e do educador de se adaptar, ler, reler, contextualizar e dialogar esse mundo aos educandos. Ao mesmo tempo que concebe esse mundo para si mesmo. Abram uma ponte (ainda cheia de tijolos e não-concluída), porque ainda se pensará mais essa questão.

Imediatamente meu pensamento vai para um "lugar de educação" fundamental nessa dinâmica desse mundo fluido. Mesmo não sendo exatamente um lugar, a mídia (que é tanta coisa, fechando-a nos veículos de comunicação e nas novas tecnologias e tecnoações desses veículos), e exatamente por ser um não-espaço, mas ao que ao mesmo tempo comunga com a instantaneidade das informações, sendo parte integrante dessa fluidez e gira-gira constante, um peso como fonte e espaço como formador, ajudador, da concepcão do mundo, do próprio mundo que move.

O ponto é esse: não é distante dele, porque também o faz. Não toma um objeto para análise porque interfere nesse objeto e precisa mantê-lo em um caminho que dome a fluidez desse mundo para, em última instância e sem muita filosofia, sustentá-lo financeiramente. Assim, mesmo que tudo na mídia seja informação e eduque, o jornalismo é a parte diretamente atrelada aos elementos mais concretos desse mundo, a busca da verdade, o paralelepípedo no meio do mar.

A questão é: onde está essa verdade se não há afastamento, se está dentro do que mostra, e se precisa, pelo menos em teoria, mostrar o que o viabiliza economicamente? (Não é isenção jornalística, não é neutralidade) Some isso ao fato de confundir público consumidor, com público consumidor de informação e educando. O jornalismo, como conhecemos, acabou. Deve ser chamado de outra coisa. E o profissional, de outro nome.

Toda essa baboseira é para me somar à visão de alguns blogueiros (seiqueláistas ou não), que mesmo instintivamente já entenderam a mudança desse barco, e estão, necessariamente raivosos, atacando a cobertura da imprensa do caso Isabella.

Alberto Dines disse genialmente que "a mídia, sobretudo a TV, usa o sofrimento para driblar o sofrimento. Quanto mais instantâneas as catarses, mais intensidade transfere-se para o espetáculo". O Jornal Nacional, que é feito de homens e mulheres, carne e osso, não uma entidade inteligente e automatizada, colocou mais um paralelepípedo, uma corrente, no encaminhamento desse mundo. Mais para o próprio porto. Um freak show da dor, falsamente vestido de interesse jornalístico, que descaradamente ditou as ordens dos fatos do mundo, do certo e errado e de algo que, de certa maneira ainda tem uma "moral" no baile todo, que são as instituições jurídicas. Não matamos tanto porque , mesmo de forma muito torta, ainda seremos julgados, ainda temos direito a sermos julgados e, até que provem o contrário, o tribunal não é forca.

A audiência triplicada e a onipresença (antecedida de onisciência) do caso, da intenção de culpabilidade, da lenha na fogueira, mostrou o perigo desse "lugar de educação" como espaço não-espaço de concepção de mundo de um educando.

Há que assumir o fim do jornalismo como o conhecemos, não por atividade egocêntrica de um ombudsman, mas por nosso compromisso como educadores desse mundo fluido. Mais: há que se destrinchar a intencionalidade da mídia porque ela não é espelho nem olhos de mais ninguém. Ela é feita de homens e mulheres. E, nesse mundo fluido e mosaico, o homem se torna cada vez mais humano. Principalmente nos erros.

O Bonner não atira seus gêmeos pela janela.



quarta-feira, 23 de abril de 2008

Catador de Façanhas



O
futebol é muito. Tanto, que intelectuais fundos, do alto das coisas humanas e divinas, ainda sonham com uma pelota cheia de barro, com o drible descomunal e impossível no adversário fantasma, e o gol lento e eterno que o acorda ainda mais das noites insones. Tanto, que apesar de ganhar caminhos alheios ao caminho que deveria seguir, o futebol segue intuitivamente, como se seus deuses comprados não tivessem poder nenhum sobre o fogo roubado de um homem da bola.

De todos os times do mundo, o Boca me parece ser o que ainda cria seus mitos e o que ainda tem o futebol como silêncio e ato, não como palavra e invenção. Os mitos não são os montados pelas cores e imagens e sim os esculpidos de suor no campo e grito de uma torcida faraônica. Sua camisa pesa nos olhos de quem vê e na alma de quem veste. Redimensiona o mundo todo, e os todos do mundo, para um retângulo cujas linhas não delimitam fim nenhum, já que o ato não pode ser delimitado.

Os heróis , na Bombonera, ainda lutam por seu primeiro pedaço de pão, como se não tivessem história. Contraditoriamente, a história de luta está no invisível visível do espaço jogado. Riquelme olha Maradona ao errar um passe. Maradona, do alto de si mesmo, sofre com se ali padecessem seus ídolos, como se quisesse e temesse aquela bola tão estranha. O ego de cada um se compartilha lentamente até formar uma unidade. No desespero, na alegria, no quase, o futebol vai criando pensamento próprio e, por isso, já que sua grandeza não tem espelhos, funde a todos numa cor só. O azul e o amarelo se pagam numa sem-imagem inconfundível e cristalina da paixão xeneize, do que é além dessa paixão.

O Boca é o time que ainda está ao alheio aos deuses. Porque os deuses não se pensam. Mas também não se amam, nem se apequenam. Ainda é um bairro, antes de uma nação. Ainda é uma pelada entreônibus e fome, antes de um jogo oficial. Ainda prefere o gol à foto, a lenda ao fato, o cheiro de cansaço de uma vitória impossível à distância inodora e indiferente da derrota aceita.

O Boca precisava de tudo para se classificar à próxima fase da Libertadores. Mas precisou apenas de si mesmo. E o Boca, como o futebol, é muito mais do que existe.