sexta-feira, 27 de junho de 2008

Errado é sonhar com o certo, que o certo dá sempre errado.



Ao se falar de samba, muitas vezes a figura de Hermínio Bello de Carvalho fica em segundo plano. Se não é a intelectualidade e a sambalidade do meu Brasil que chama, o povo fica sem saber da importância desse homem. Se Paulinho é a alma, Candeia a memória e Cartola o talento, Hermínio é o coração e as pernas do gênero no país (o samba é tão grande que é só transformando-o em corpo para não nos desbordarmos).

Foi amigo profundo de muitos artistas, os melhores, fez letras geniais, produziu, trouxe nomes fundamentais à tona. No seu extenso hall de parcerias estão monstros como Pixinga, Paulinho da Viola, Elizeth Cardoso, Eltão Medeiros, Nelson Sargento, Cartola e por aí seguiremos. É muito conhecido por seu esforço de juntar a música popular da música erudita (como colocar no mesmo palco a Clementina e o virtuoso violonista Turíbio Santos). Mostrou que a erudição real vem da alma e os rótulos são coisas de dedos presos e gente que não sabe cantar. Enfim, Hermínio é o incansável e flamante batalhador de uma , como dizer, ciência dionísiaca do samba. Mexe com sua história, com seu futuro, com suas composições, compositores e de como anda na sociedade (o samba anda sambando?).

E não é que essa coisa de brógue é democrática, quase comunista? Pois bem, patrocinaram um blog pro Hermínio. Talvez seja um dos melhores na rede. Lá você vai encontrar raridades incríveis, coisas que fazem chorar os gostantes e respirantes da música. Fortunas como fotos do casamento de Cartola e Dona Zica, gravação na casa do cara com Paulinho da Viola e Clementina (essa é incrível!), partituras, letras originais, vídeos e o escambau. É coisa para perder dias e dias.

A cultura não é inacessível. Quase inacessível, no Brasil, é saber aculturar-se.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

"Sashird Lao é vanguarda"







Sashird Lao é um trio frances de jazz que rompe os ouvidos. É a mistura de uma linda vocalista egípcia, com voz imponente e com um sax destruidor, um rapaz que faz baixo vocal de forma perfeita e um virtuose no sopro e na percurssao. Um powertriomodernurbanmixjazzband. Só assim para defini-los.

Mais que defini-los, no entanto, há que escutar o som desses malucos. É forte, azeitado, ousado, tem cheiro e tem cor. Eles estiveram no Brasil há poucos dias e participaram de um festival da Alianca. A mídia, pelo que parece, falou pouco. Oportunidade perdida e incompreensível já que os editores das músicas modernas adoram um grupo estrangeiro, que mistura sons e tem cara de vanguarda (termo roubado de meu amigo Túlio). Mas eles vao além do estereótipo.

No site dos caras, e da senhorita, dá pra escutar algumas músicas (originais e versoes). De qualquer maneira, vao uns vídeos do quase comunista iútubí.

terça-feira, 24 de junho de 2008

CARPINHAS PAZ E AMOR


Notas de um dia interessante sobre os cascudinhos das carpas na Praca de Maio.


  • Clarin e La Nación querem muito criar um clima de tensao e sangue com essa questao do Congreso estar debatendo as rentencoes do campo. É o momento exato e clássico em que o jornalismo tem que respirar e deixar de atropelar palavras e teorias catastróficas. É a hora que tem que dizer para acabar a palhacadinha de certos e errados. De parar de reclamar democracia e fazer por ela. Como disse agora pouco uma congressita: "Me perdoe a emocao com que estou falando (realmente emocionada). Mas temos que separar aqui debate de discurso. Temos que perceber que nao estamos de lados opostos. Isso nao é um Boca e River. Ouco falar em democracia, mas vejo autoritarismo por parte do governo e por nossa parte, ao falar apenas de dinheiro e taxas. A ditadura nao nos tirou a confianca na democracia, mas a confianca de sermos cidadaos". Calei depois dessa.


  • Ninguém deu muita trela, mas foi impagável os manifestantes kirchneristas e pró-campo jogando uma pelada de rugby em frente a Casa Rosada. O esporte do contato físico, da forca, da ascendencia sobre o outro, se reverteu numa forma simbólica e fofinha de dizer que ninguém quer confusao e que a hora é de diálogo. Assim como foi impagável o CQC de ontem colocando o ministro do transporte e o presidente do sindicato dos taxistas, dentro do táxi deste último, discutindo o assunto dos cascudinhos das faixas exclusivas.



  • Fiquei escutando as posicoes no Congresso e acho genial o fato de que ele volte a ser um espaco de real discussao das leis e nao um apendice político do Executivo. Além disso, percebi o cuidado de cada congressita em mostrar serenidade e reconhecerem que a discussao é difícil e que nao adianta brigar. Nas vezes que se excederam, os políticos pediram desculpas. Embora muita coisa se resolva nos bastidores, o "evento" que se tornou o diálogo televisivo, é um avanco democrático inegável. Acontece que, em uma chamada de break e após exposicoes bem calmas dos legisladores, a apresentadora do TN diz: "Vamos para um intervalo e já voltamos para essa tensa e acalorada discussao". Foi como se falasse ao ver dois meninos de 5 anos brigando: "Já voltamos com essa briga perigosa, de músculos exacerbados e golpes titânicos e violentos. Fiquem em suas casas. A polícia está chegando para apartar".



  • Na frente do Congresso, os apoiantes de cada visao ficavam se explicando um para o outro. A reedicao moderna da Ágora grega. Pelo menos como um espaco de debates.



  • Dizem que o pessoal do campo ganhou a pelada do rugby por dois tries a favor.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Argentina campeón, Videla al paredón! (Montoneros)


por Bruno Moreno

Quarta-feira, 25/6/8, completará 30 anos que a Argentina ganhou o título da Copa do Mundo de 1978, disputada no próprio país (o primeiro de dois). A final foi disputada contra a Holanda, no Monumental de Nuñez. Os locais ganharam de 3 a 1 da laranja meio bagaco mecanica . Os gols foram feitos por Marios Kempes (2) e Daniel Bertoni. Mas que chato e previsível, nao?


De jeito nenhum. Foi uma Copa cheia de pendengas. Algumas sérias, outras folcróricas. Vivida e transcorrida em um contexto político difícil. Cheia de histórias mal contadas. E faz aniversário redondo quando o país se ergue e tenta se curar de patologias exacerbadas principalmente neste período. Essa semana o Congresso estará exercendo a democracia. O povo argentino poderia acompanhar o desenrolar dos próprios passos. Passos impedidos por muito tempo por botas militares.

Algumas pantuscadas do Mundial de 78:
  • A Copa estava se passando no ápice de uma ditadura violenta, sangrenta e macabra. Dois anos antes, os militares tinham derrubado a Isabel Perón. O chefe da Junta Militar na época era o General Rafael Videla. A inflação crescia no país, as torturas explodiam, os desaparecidos sumiam aos baldes e a Copa passou a ser estratégica na manutenção da ditadura.


  • Também era o momento crítico de uma discussao filosófica que vinha desde os anos 60 no país: como a Argentina deve jogar? Usando a "La nuestra", da rapidez de toques, dos dribles (chamados de "fantasia"), da beleza do esporte pela beleza ou a que há algum tempo estava sendo usada que era o futebol influenciado pelos ingleses, do corpo, da teórica hombridade, da violência, da defesa (optada porque os gambeteios ainda nao haviam trazido resultado). O técnico era Cesar Menotti, que era defensor férreo do primeiro estilo, que disse que os treinadores anteriores tinham matado o futebol argentino e que ia voltar com a "la nuestra". Foi um paradoxo a sua permanencia porque Menotti era um crítico assumido da ditadura, filiado ao partido comunista e com tendencias à liberdade de expressao (só olhar os cabelões dos jogadores). A Junta se calou, precisava ganhar a Copa para manter o povo feliz. Interessante notar também, em mais uma contradição, como a imprensa na época (totalmente controlada pelos militares), vendiam o pensamento de um "jeito de jogar argentino", apelando ao orgulho de ser argentino. Ou seja, a "la nuestra" como uma forma de criar o simbolismo de união nacional, identidade nacional. Por isso, Menotti foi muitas vezes retratado como um herói, como um novo San Martin ou Belgrano, uma espécie de libertador futebolístico do domínio europeu. Nesse caso, do estilo europeu de ver o esporte, com o resgate da verdadeira alma "criolla". O que é muito debatido ainda, já que muitos dizem que de bonito a Argentina apresentou pouco, jogando muitas partidas na base da força e da raça.

  • Maradona nao foi chamado. Era um jovem que ia fazer 17 anos, que estava arrebentando no campeonato local, mas que era considerado inexperiente para um torneiro de tamanha importância, pelo mesmo Menotti.

  • A Argentina é eternamente acusada de roubo com o jogo contra o Peru, em que precisava vencer por 4 a 0 para conseguir passar para a próxima fase. Após ter empatado em um vergonhoso e medroso 0 a 0 com o Brasil, meteram 6 na seleção peruana. Reza a lenda que houve um acerto entre ditaduras para que os argentinos ganhassem (50 milhões de dólares e toneladas de grãos) e fossem pra final. O Brasil, principal afetado por isso, foi o país que mais reclamou. Não se sabe de nada até hoje. Villa, no final de sua carreira jogou junto com o gênio peruano Teófilo Cubillas, quem jurou que não teve acerto nenhum naquele jogo. Menotti diz que o Peru tinha chegado destruído fisicamente à partida, com jogadores fundamentais que não conseguiam nem andar. Além disso, relembrou que a Argentina, meses antes, tinha dado de 3 lá em Lima.
  • Dizem que alguns jogadores argentinos foram dopados. Na verdade, nunca houve comprovação disso, mas alguns fatos levantam suspeitas. Um deles é que, segundo o historiador David Downing, há relatos de que Kempes e Tarantini continuaram correndo no vestiário de um lado para o outro após a partida contra o Peru por uma hora. E o mais engraçado: o exame de doping realizado era tão, mas tão confiável, que uma mostra de sangue de um jogador argentino demonstrou por A mais B que ele estava, indubitavelmente, "grávido".
  • Se os militares acharam que iam esconder as atrocidades cometidas, o tiro saiu direto no Rio da Plata. Foi durante a Copa que a imprensa internacional ficou sabendo com mais detalhes do que estava acontecendo. Foi durante a Copa, por exemplo, que o mundo ficou sabedo da existência das Madres de Plaza de Mayo e o drama de seus filhos desaparecidos.
  • Segundo o mesmo historiador, o governo ditatorial gastou uma fortuna ao contratar uma empresa de relações públicas para criar o slogan e projetar a imagem da ditadura junto ao povo, ou seja, para aproveitar marketeiramente a ocasião. A empresa se chamava Burson & Masteller e foi responsável, além do slogan do evento "25 milliones jugaremos el Mundial" (bem parecido com o hino "90 milhões em ação" brasileiro), pela desapropriação das villas de emergencia (as villas, ou favelas) e expulsão de seus moradores de zonas onde iam acontecer a competição, assim como a tentativa de esconder os bairros pobres na estrada para Rosário com a criação de um muro, no melhor estilo apartheid, que rodeava as casas humildes.
  • Alguns países, como a Holanda, não queriam jogar a Copa como protesto à violação dos Direitos Humanos no país. Ao receberem a medalha de prata, os holandeses, de fato, se recusaram a cumprimentar os representantes do governo ditatorial. Por outro lado, o capitão da Alemanha, Bert Volts, emuldorou a seguinte pérola: "A Argentina é um país onde reina a ordem. Eu não vi nenhum preso político." Onde ele procurou? No Cafe Tortoni?
  • O Papa Paulo VI abençoou a Copa e o governo ditatorial sanguinário e assassino da Junta Militar de Videla.
  • A final com a Holanda foi uma vingança da Copa anterior, quando a Argentina tomou uma piaba de 4 do Carrosel.
  • Quarta agora o Canal Encuentro vai passar um documentário sobre o Mundial e suas polêmicas. Mundial 78: verdad o mentira?
  • Menotti e alguns jogadores são lembrados como coniventes com a ditadura. É uma discussão. Fato é que o Mundial não teve o impacto esperado na alienação total e irrestrita do argentino. A Guerra das Malvinas teria um papel até mais importante, nesse sentido, anos depois. Mas os jogadores foram responsáveis também pela propaganda da ditadura? A classe média também não comprou essa felicidade? Nós não compramos essa felicidade ao achar que ver e admirar futebol , por seu caráter lúdico e mítico, significa desprender os pés do que é real?
Futbol y Dictadura
Menotti herói
Canal Encuentro

domingo, 22 de junho de 2008

Crisinildos e fatabaldos


Vou fazer algo que não é legal, mas precisa de um peso contra: criticar gente que escreve em jornais. Não conheço quem escreveu, não sou ninguém, mas a série de notícias bombásticas que ogrôbo anunciou sobre a "crise argentina" é preocupante. Primeiro porque o veículo adora essa palavra. Até usei aqui no bróg, mas a trato mais com ironia do que o real significado apocalíptico que evoca. Afinal, se tudo é crise, o que é crise? Um estado de normalidade diante da complexidade do mundo? Se é assim, amor é crise, deus é crise, dunga é crise, falar é crise, calar é crise.

A Argentina passa por um momento difícil sim, como é difícil o momento no paraguai, no Uruguai, no Brasil, na Venezuela, no Suriname, na Micronésia e em Asgard. A questão do campo é complicada? É. Mas, ao meu ver, é mais sintoma de um país que está se erguendo e, com ele, erguendo as sarninhas democráticas, do que um ponto de fla-flu é um ai jesus. O governo gasta muito com subsídios (como foi dito na matéria)? Sim. Mas é preciso examinar os pontos positivos e negativos da intençao, nao colocar isso junto com altas de juros e aumento dos preços e cor da calcinha da Cristina. A primeira matéria, por exemplo, não abordou um tema crucial, que é a questão do INDEC (mede inflaçao, entre outras centimetragens) e sua pouca confiabilidade. Enfim. Joga na mão do Dines que ele sabe o que fazer!

Sei que é pouco espaço, sei que tem editor querendo chamar a calamidade e dar os braços para o terceiro cavaleiro do apocalipse, mas há que ter muita calma nessa hora. Ou vai ficar igual à suposta série de reportagens sobre a ditadura nas favelas feita há alguns meses pelo mesmo coiso e que se tornou um dos maiores crimes jornalísticos e éticos já cometidos (o da ignorância do tentar entender e de que, às vezes, pra entender, é preciso mais que entender).

Esse é o lado bom dos brógs. Além de ser algum exercício inconsciente do ego, além de falar coisinhas bonitas, rabugentices, supérfluos e até gente bonita , jovem e descolada, mostram que pra entender algo não bastam algumas linhas cheias de números e declarações cruzadas. Hoje em dia, uma matéria é feita de dias diferentes e por vários autores, jornalistas ou não. Hoje em dia, uma matéria só se aproxima da faurelúngeca verdade com alguns posts a mais no baú da felicidade e nesse mosaico do mundo feito de pequenos diários.

Ah, alguém aí ainda lembra de algo que tá batendo a porta, que é a crise energética que ia matar a todos os argentinos de frio há alguns meses? E a crise do sexo que agora afeta os argentinos? E a crise do Racing? Existem crises mais importantes...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O campo expulsará a febre?


Cristina é populista. Mas tudo na Argentina nao é o que parece, assim como no Brasil o que se torna, causa a consequencia inversa (reforco policial aumenta a violencia, um maracana lotado faz o local perder, prender políticos corruptos moderniza as táticas de corrupcao). Entao, deve-se dizer que Cristina e Nestor sao populistas. Mais, que o povo argentino precisa de um "populismo controlado e médio". Ou seja, fazem acoes demagógicas populistas, embora sacrifiquem um pouco da máquina estatal por um bom funciomanento social. Ao mesmo tempo que ela promete, numa atitude ridícula, usar o dinheiro das retencoes para construir mais hospitais ( sem estudo, sem ver a real necessidade de quem realmente necessita, sem pensar em investir nos que já existem, num atitude sanguínea e desesperada pra jogar o campo contra a cidade), ela nao abre mao de que o estado tenha braco forte , dê subsídios e impeca o encarecimento do transporte público, por exemplo (com o que concordo plenamente. Aqui o metro tá 90 xilins, o onibus 1 dinheiro e o trem 7o centavos de patacas. Um trabalhador da classe menos favorecida, que geralmente se desloca mais, nao gasta, como no Rio de Janeiro, mil reais pra ir na esquina).

Sao quase peronistas, mas transformam a ditadura em hermetismo institucionalizado. Cristina nao dá conferencias de imprensa porque seu discurso é unilateral. Ela fala pra bilhar e sem contestacoes. Sao quase peronistas, mas nao batem nos sindicatos, se únem a eles. Mas aí, quando o país parece ter readquirido forca e estar, até pouco tempo, de forma tao estável e rumo a Tóquio, a crise do campo vem.

Crises sao boas, minha gente. É com a crise de talento que o Dunga vai embora. É com a crise que nosso corpo expulsa a febre. É com a crise conjugal que mudamos pra melhor nossa relacao com o ser amado. Isso tudo, claro, se nos cuidarmos, se nos abrirmos aos fatos, se dialogarmos, se aceitarmos os erros, se pensarmos com paz. Caso contrário, o Dunga fica pra sempre e inventará um meio-campo feito de zagueiros, a febre se transforma em pneumonia e o casal se mata com tiros de prata. Por isso que a chamada crise do campo veio num momento bom para que o governo e o próprio argentino nao entrassem na roda viva de que foi vítima com os anos. Em países emergentes, os governos fazem tudo para o povo ficar quieto, os ricos mais ricos, os militares mais gordos e os americanos mais americanos. Quando tudo está assim, é que se deve despertar.
Uma das ótimas questoes que essa crise toda vem plantar atrás da orelha alheia é algo que deve ser pensado por todos os países latinoamericanos e que tem a ver com essa forma populista (palavra legal) de governar: a indústria é a riqueza de um país?



A pantuscada comecou quando Cristina aumentou as retencoes e disse que usará esse dinheiro, entre outras coisas, para investir na indústria. Ou seja, dar dinheiro para o povo pobre usar as maos como ferramentas e ter trabalho. Acontece que as pessoas fixaram a atencao no pouco dinheiro que ficaria para a galera do campo (super válido), mas esqueceu de questionar algo muito claro, que é o anacronismo dessa justificativa.
O mundo ainda é baseado na producao? A riqueza de um país e seu desenvolvimento ainda está baseado na indústria? Porque entao os Eua tem um grau de industrializacao de 19% e a Argentina de 25%? Por ser mais industrializada, a Argentina é mais rica que os Eua? E por que os homens mais ricos do mundo, os maiores investimentos feitos, estao na área da comunicacao e informacao?
O populismo de Cristina e de muitos governantes latinoamericanos está agora, além da demagogia, no anacronismo. Pintam um quadro da década de 50, baseando o crescimento de um país no suor manchado de óleo dos trabalhadores somente. Esquecem a virtualizacao das relacoes e do mundo. Falam em um idioma que nao existe mais. E, como em todas as relacoes comerciais através dos anos, vao ficando pra trás, na corrente inversa. Quando deveriam investir na indústria , importam e vendem matéria-prima. Quando deveriam investir na pesquisa tecnológica e de informacao (a verdadeira riqueza hoje produzida), congelam a máquina do estado para a indústria (e sem modernizá-la). E, quando tehm um mercado propício para impor a importancia dos produtos agrícolas, usam a crise da pior forma e se arriscam a perder a oportunidade ideal pra barganhar com os europeus famintos e com petróleo caro.
A classe média que bate panelas e a classe pobre "que nao existe" (ver post anterior) devem ver a crise como um momento de reflexao, nao de guerra e desespero. Devem parar de usar as acoes populistas quando bem lhe convém e perceber que esse peronismo incrustado em cada pele argentina como uma tatuagem interna e inconsciente, se tornou um cadáver dentro de um corpo que se move com dificuldades.
Caso contrário, o Dunga fica , a febre aumenta e nao haverá mais companhia para dormir de conchinha.

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Amo o Dunga. De paixao. Como jogador, como campeao, como ídolo. É por isso que acredito que ele deva se preservar um pouco. Carlinhos Violino para técnico da selecao!!


quarta-feira, 18 de junho de 2008

ARGENTINA X ARGENTINA

É dia de Brasil e Argentina. Escrevo atrasado, mas nao importa. Só pra paranbenizar a Fox Sports daqui e o programa Expediente Futbol que, desde segunda, está passando jogos históricos dos dois países. Há algumas coisas geniais:

- Medo argentino em 78: o jogo foi do Brasil. A Argentina nao fez nada de bom e quase que o Roberto Dinamite faz um gol.

- Falcao dá porrada em Maradona: a elegancia falconiana hoje em dia esconde uma das patadas mais bem dadas da Copa de 82. Falcao quase arrancou a perna do ainda incipiente Maradona no meio-campo, logo após Passarela ter quebrado o Zico.

- Falhas do Capacete: Junior, o vovo urubu, na mesma Copa, quase entrega em duas ocasioes um jogo teoricamente fácil. Perdeu duas bolas incríveis na entrada da área. Sorte que o Ramon Diaz viajou.

- Morte ao Muller: nao preciso nem comentar os gols perdidos do suposto atacante em 90. Aliás, vendo friamente, é incrível perceber quantos gols (e quao claros foram) o brasil perdeu.

- Escalacao Tosca: em 90, a escalacao antes do jogo era feita de um modo bizarro. Se colocava um quadrado em vídeo dos jogadores, com o gol atrás deles. É de chorar de rir os movimentos graciosos do bigode do Ricardo Rocha e o Maradona fechando o olho por causa do sol. (Se alguém achar no utube, por favor!)

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O jogo de hoje tem uma ambiencia interessante. Parecida , mesmo que só um nariz, com as vividas por Peron no meio do século passado. Acontece que, na época, o presidente proibia a selecao argentina de jogar competicoes internacionais "complicadas", com medo de um fiasco nacional e, ao mesmo tempo, uma suposto ambiente negativo para seu governo/ditadura. Além disso, alguns setores futebolísticos tinham pavor que "la nuestra", como era chamado o estilo argentino de jogar, fosse superado (principalmente pelo estilo dos ingleses) e confundisse o orgulho e a identidade do esporte mais importante do país. É claro que os tempos sao outros, é claro que é apenas um jogo da eliminatória, é claro que é contra o Brasil e os deuses ficam se batendo, mas vem numa hora de movimentacao política e economica crucial para os hermanos. É o jogo dividindo espaco com a questao do campo. Cristina ontem lavou as maos, mas o debate continua com forca agora no Congresso. Cristina tem sua aprovacao reduzida a quase nada e nao seria legal mais uma derrota ao orgulho de uma Nacao. Cristina tá fazendo manifestacao na Praca de Maio, um erro estratégico. Todos vao embora da manifestacao pra ver o jogo. E Cristina, como Peron, precisa , mais que nunca, do circenses feliz.

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Alguns emails elogiaram meu mal-escrito texto sobre o Deus e o Diabo. Pediram mais informacoes. Bem, vou tentar dar é opinioes. E geralmente vazias. Informacao legal eu deixo pro meu amigo Tulio em seu blog Aires Buenos, leitura fundamental pra entender essa cidade e suas sutilezas. Inclusive, parabéns a ele pela criacao do estilo tamborinlazzo, uma onda brasileira e rítmica no panelazzo de jeito gringo de Abasto.

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Mas preciso dar um pitaco. E é sobre a ausencia da , como chamar, classe pobre urbana portenha. Os panelacos sao da classe média, média-alta (ah, as classes. suponhamos que elas ainda existam). Que estao usando essa questao para reclamarem de outros pontos, principalmente , a meu ver, do hermetismo do governo. Por um lado bom, sao demandas que surgem de um estado democrático, que comeca a azeitar a máquina. Creio que é natural e necessário, se nao fosse vista com a visao bélica de estar certo ou errado dessa classe e do governo. Ponto.

A manifestacao do campo é uma mistura de oligarquias rurais com pequenos e médios produtores, mas gente, povo, basicamente rural. É incrível como a classe menos favorecida de Buenos Aires (a dizer, nesse ponto, centro quase total do país) nao aparece. Alguns motivos para isso? Muitos, inclusive a questao da pobreza merece e terá um texto a parte. Mas como seria formada essa classe urbana portenha? Diferente do Brasil (principalmente do Rio), quando, pela obrigatoriedade do tráfico na pauta, e proximidade das favelas etc, se tem uma delineacao mais clara dos cidadaos que moram em lugares menos favorecidos. Essa faixa da populacao nao tem cara aqui. Ou até tem, mas é geralmente desenhada com preconceito, higienismo e uma visao completamente progressista, a dos "bons selvagens" (como era e ainda é no rio). O governo de acoes populistas diz se movimentar para um povo que é um fantasma. Que nao quase nunca é citado. E, quando o é, é visto como um monte de cartoneiros (recolhem papel, cartolina, lixo e assim ganham o minguado dinheiro), que vêm de lugares distantes da cidade, com a juncao de bolivianos miseráveis e peruanos bandidos (uma classe pobre formada por gente que nao é argentina, vai reclamar leis argentinas?), a gente da villa, que é preguicosa, nao tem educacao , que só sabe cantar cumbia , jogar bola e que é uma mancha na raca quase européia local. Mas nao falam. Ou, se falam, ninguém escuta. Mas que votou na Cristina. É um governo que governa pra quem nao tem voz. E uma classe média que está se transvetindo aos olhos do mundo com a fantasia de povo (ninguém está dizendo que as manifestacoes nao sao necessárias. Pelo contrário, sao aula de democracia e vocacao cidada).