quinta-feira, 24 de abril de 2008

Dor, educação, JN e Isabella


Muitos autores estão se debatendo atualmente para definir, enquadrar, nomear a sociedade, o tipo de sociedade, se é mesmo sociedade, o período que vivemos. Com a imediatização de tudo, por consequência com o movimento da história indo cada vez mais para o presente quase-futuro das coisas e dos homens, está se alterando (ou já se alterou) a hierarquia, o tempo e a importância de "lugares de educação" de um indivíduo.

Roubando um diálogo que tenho com uma amiga , vejo que a escola sempre se comportou como uma ferramenta de intermediação da concepção do mundo, com o entendimento desse mundo. Se o mundo atual é o "sendo" e não o "sido", nossa discussão, entre outras coisas, está na capacidade da escola e do educador de se adaptar, ler, reler, contextualizar e dialogar esse mundo aos educandos. Ao mesmo tempo que concebe esse mundo para si mesmo. Abram uma ponte (ainda cheia de tijolos e não-concluída), porque ainda se pensará mais essa questão.

Imediatamente meu pensamento vai para um "lugar de educação" fundamental nessa dinâmica desse mundo fluido. Mesmo não sendo exatamente um lugar, a mídia (que é tanta coisa, fechando-a nos veículos de comunicação e nas novas tecnologias e tecnoações desses veículos), e exatamente por ser um não-espaço, mas ao que ao mesmo tempo comunga com a instantaneidade das informações, sendo parte integrante dessa fluidez e gira-gira constante, um peso como fonte e espaço como formador, ajudador, da concepcão do mundo, do próprio mundo que move.

O ponto é esse: não é distante dele, porque também o faz. Não toma um objeto para análise porque interfere nesse objeto e precisa mantê-lo em um caminho que dome a fluidez desse mundo para, em última instância e sem muita filosofia, sustentá-lo financeiramente. Assim, mesmo que tudo na mídia seja informação e eduque, o jornalismo é a parte diretamente atrelada aos elementos mais concretos desse mundo, a busca da verdade, o paralelepípedo no meio do mar.

A questão é: onde está essa verdade se não há afastamento, se está dentro do que mostra, e se precisa, pelo menos em teoria, mostrar o que o viabiliza economicamente? (Não é isenção jornalística, não é neutralidade) Some isso ao fato de confundir público consumidor, com público consumidor de informação e educando. O jornalismo, como conhecemos, acabou. Deve ser chamado de outra coisa. E o profissional, de outro nome.

Toda essa baboseira é para me somar à visão de alguns blogueiros (seiqueláistas ou não), que mesmo instintivamente já entenderam a mudança desse barco, e estão, necessariamente raivosos, atacando a cobertura da imprensa do caso Isabella.

Alberto Dines disse genialmente que "a mídia, sobretudo a TV, usa o sofrimento para driblar o sofrimento. Quanto mais instantâneas as catarses, mais intensidade transfere-se para o espetáculo". O Jornal Nacional, que é feito de homens e mulheres, carne e osso, não uma entidade inteligente e automatizada, colocou mais um paralelepípedo, uma corrente, no encaminhamento desse mundo. Mais para o próprio porto. Um freak show da dor, falsamente vestido de interesse jornalístico, que descaradamente ditou as ordens dos fatos do mundo, do certo e errado e de algo que, de certa maneira ainda tem uma "moral" no baile todo, que são as instituições jurídicas. Não matamos tanto porque , mesmo de forma muito torta, ainda seremos julgados, ainda temos direito a sermos julgados e, até que provem o contrário, o tribunal não é forca.

A audiência triplicada e a onipresença (antecedida de onisciência) do caso, da intenção de culpabilidade, da lenha na fogueira, mostrou o perigo desse "lugar de educação" como espaço não-espaço de concepção de mundo de um educando.

Há que assumir o fim do jornalismo como o conhecemos, não por atividade egocêntrica de um ombudsman, mas por nosso compromisso como educadores desse mundo fluido. Mais: há que se destrinchar a intencionalidade da mídia porque ela não é espelho nem olhos de mais ninguém. Ela é feita de homens e mulheres. E, nesse mundo fluido e mosaico, o homem se torna cada vez mais humano. Principalmente nos erros.

O Bonner não atira seus gêmeos pela janela.



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