
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O campo expulsará a febre?

quarta-feira, 18 de junho de 2008
ARGENTINA X ARGENTINA
- Medo argentino em 78: o jogo foi do Brasil. A Argentina nao fez nada de bom e quase que o Roberto Dinamite faz um gol.
- Falcao dá porrada em Maradona: a elegancia falconiana hoje em dia esconde uma das patadas mais bem dadas da Copa de 82. Falcao quase arrancou a perna do ainda incipiente Maradona no meio-campo, logo após Passarela ter quebrado o Zico.
- Falhas do Capacete: Junior, o vovo urubu, na mesma Copa, quase entrega em duas ocasioes um jogo teoricamente fácil. Perdeu duas bolas incríveis na entrada da área. Sorte que o Ramon Diaz viajou.
- Morte ao Muller: nao preciso nem comentar os gols perdidos do suposto atacante em 90. Aliás, vendo friamente, é incrível perceber quantos gols (e quao claros foram) o brasil perdeu.
- Escalacao Tosca: em 90, a escalacao antes do jogo era feita de um modo bizarro. Se colocava um quadrado em vídeo dos jogadores, com o gol atrás deles. É de chorar de rir os movimentos graciosos do bigode do Ricardo Rocha e o Maradona fechando o olho por causa do sol. (Se alguém achar no utube, por favor!)
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O jogo de hoje tem uma ambiencia interessante. Parecida , mesmo que só um nariz, com as vividas por Peron no meio do século passado. Acontece que, na época, o presidente proibia a selecao argentina de jogar competicoes internacionais "complicadas", com medo de um fiasco nacional e, ao mesmo tempo, uma suposto ambiente negativo para seu governo/ditadura. Além disso, alguns setores futebolísticos tinham pavor que "la nuestra", como era chamado o estilo argentino de jogar, fosse superado (principalmente pelo estilo dos ingleses) e confundisse o orgulho e a identidade do esporte mais importante do país. É claro que os tempos sao outros, é claro que é apenas um jogo da eliminatória, é claro que é contra o Brasil e os deuses ficam se batendo, mas vem numa hora de movimentacao política e economica crucial para os hermanos. É o jogo dividindo espaco com a questao do campo. Cristina ontem lavou as maos, mas o debate continua com forca agora no Congresso. Cristina tem sua aprovacao reduzida a quase nada e nao seria legal mais uma derrota ao orgulho de uma Nacao. Cristina tá fazendo manifestacao na Praca de Maio, um erro estratégico. Todos vao embora da manifestacao pra ver o jogo. E Cristina, como Peron, precisa , mais que nunca, do circenses feliz.
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Alguns emails elogiaram meu mal-escrito texto sobre o Deus e o Diabo. Pediram mais informacoes. Bem, vou tentar dar é opinioes. E geralmente vazias. Informacao legal eu deixo pro meu amigo Tulio em seu blog Aires Buenos, leitura fundamental pra entender essa cidade e suas sutilezas. Inclusive, parabéns a ele pela criacao do estilo tamborinlazzo, uma onda brasileira e rítmica no panelazzo de jeito gringo de Abasto.
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Mas preciso dar um pitaco. E é sobre a ausencia da , como chamar, classe pobre urbana portenha. Os panelacos sao da classe média, média-alta (ah, as classes. suponhamos que elas ainda existam). Que estao usando essa questao para reclamarem de outros pontos, principalmente , a meu ver, do hermetismo do governo. Por um lado bom, sao demandas que surgem de um estado democrático, que comeca a azeitar a máquina. Creio que é natural e necessário, se nao fosse vista com a visao bélica de estar certo ou errado dessa classe e do governo. Ponto.
A manifestacao do campo é uma mistura de oligarquias rurais com pequenos e médios produtores, mas gente, povo, basicamente rural. É incrível como a classe menos favorecida de Buenos Aires (a dizer, nesse ponto, centro quase total do país) nao aparece. Alguns motivos para isso? Muitos, inclusive a questao da pobreza merece e terá um texto a parte. Mas como seria formada essa classe urbana portenha? Diferente do Brasil (principalmente do Rio), quando, pela obrigatoriedade do tráfico na pauta, e proximidade das favelas etc, se tem uma delineacao mais clara dos cidadaos que moram em lugares menos favorecidos. Essa faixa da populacao nao tem cara aqui. Ou até tem, mas é geralmente desenhada com preconceito, higienismo e uma visao completamente progressista, a dos "bons selvagens" (como era e ainda é no rio). O governo de acoes populistas diz se movimentar para um povo que é um fantasma. Que nao quase nunca é citado. E, quando o é, é visto como um monte de cartoneiros (recolhem papel, cartolina, lixo e assim ganham o minguado dinheiro), que vêm de lugares distantes da cidade, com a juncao de bolivianos miseráveis e peruanos bandidos (uma classe pobre formada por gente que nao é argentina, vai reclamar leis argentinas?), a gente da villa, que é preguicosa, nao tem educacao , que só sabe cantar cumbia , jogar bola e que é uma mancha na raca quase européia local. Mas nao falam. Ou, se falam, ninguém escuta. Mas que votou na Cristina. É um governo que governa pra quem nao tem voz. E uma classe média que está se transvetindo aos olhos do mundo com a fantasia de povo (ninguém está dizendo que as manifestacoes nao sao necessárias. Pelo contrário, sao aula de democracia e vocacao cidada).
Deus e o Diabo na Terra da Carne

A questão do campo na Argentina é tão forte, tão cheia de sutilezas envolvidas, tão grande por envolver quase todos os aspectos que regem uma sociedade democrática, que mais parece um corpo, quase se movendo com suas próprias emoções. Não sei se é privilégio dos tempos transmodernos, mas é algo complexa e, por isso, impossível de ser vista, assimiliada e criticizada em algumas linhas. Para isso, tentarei, no mais humilde dos entendimentos, falar um pouco a cada semana nesse blog. Até quando for esquecida e voltarem as notícias de assassinatos e pendengas rotineiras.
No entanto, antes da confusão é preciso falar do despontamento de duas figuras argentinas que estão se tornando quase míticas politicamente. Esse é o momento mais claro de ver como se formam esses personagens. E , mesmo caminhando em pontes diametralmente opostas, se encaixam , se alimentam, se transfiguram e resumem muitas questões, atuais e históricas no simples decorrer de suas ações, em si próprios.
Luis Delia e Alfredo de Angeli se parecem fisicamente, mas é só. O primeiro é visto como um defensor ferrenho do "crischnerismo" e das decisoes da presidenta. O segundo, é o homem que leva pra frente o reclamo do campo. O primeiro tem muita história política antes da paralisação do campo. O segundo, apesar de ter feito outras coisas, basicamente começa o estrelato verdadeiramente dito com essa situação.
Delia tem sua origem política nos desígnios de Perón, nas ações populistas e populares que privilegiaram a classe dos trabalhadores. Sua história é basicamente associada a sindicatos, uma suposta luta anti-proletariado, federalista e pró-soberania Argentina. De Angeli é um produtor de soja transgênica, que entrou na atividade sindical rural em meados dos anos 90 e lutou contra os bancos que se apropriavam das terras de pequenos e médios produtores endividados com o difícil período que viviam (ele também no bolo).
Delia, no decorer dos anos, se tornou um profissional único e de extrema força política: o piqueteiro. Consiste em um homem capaz de mobilizar pessoas, com claro apoio governamental, elevar bandeiras, gritar em megafones, e falsificar uma manifestação de alguns indivíduos claramente azeitados de política em uma teórica manifestação popular e espontânea. E, isso, na base da força. Ele tem um histórico de violência e de associações com entidades violentas, conhecidas por defenderem seus "ideais" e bofetearem quem estão contra. Em seu currículo está, além de ter participado em alguns cargos do governo K, a invasão a uma delegacia de polícia no bairro do La Boca (exigiam justiça pela morte de um militante da FTV, Federación Tierra y Vivienda, um conjunto de grêmios de trabalhadores de vários setores e do qual era um dos líderes e atual presidente), invasão das terras de um magnata americano e acusação (que não provou e, por isso, Kirchner pediu pra ele se retirar de seu governo) de que os próprios judeus haviam armado o atentando ao prédio da AMIA Asociación Mutual Israelita Argentina), ocorrido em julho de 94 e que matou a 86 pessoas. Sempre com controvérsia, feridos e tijoladas envolvidas.
De Angeli , por sua vez, começou a despontar na época da crise de Fernando de La Rua, já treinando a modalidade "corte de estradas à distância", sendo um dos participantes ativos desse estilo em Gualeguaychú e, depois da ordem do ex-presidente de descer o pau nas manifestações, foi preso no confronto com policiais. Depois, em 2004, se meteu na luta contra o Uruguai e suas fábicas de celulose do outro lado do rio Gualeguaychú, de novo bloqueando estradas com protestos, dizendo que se tratava de um crime ambiental que afetava (e de fato afetava) fortemente a Argentina e convocando a todos à destruição (literal) das fábricas. Se tornou um dos líderes da Associação Ambiental da província e a justiça uruguaia até começou um processo para prendê-lo. Quando começou o "paro" do campo argentino, sendo Gualeyguachú o centro mais radical do manifesto rural, mas estando perto o suficiente da capital para incomodar, não era de se esperar que o líder dos "chacareros" locais aparecesse como voz quase onipresente do reclamo agropecuário. Pelo outro lado, Delia se consolidava como o líder piquetero dos Kirchner, um dos homens mais ativos do oficialismo, com incrível capacidade de mobilizar sua gente e verba para suas ações. Mas a Cristina estava tranquila e não precisava que a "defendessem nas ruas". Até o paro.
A aparente bagagem de choques e gritaria dos dois é só aparente. Delia é visto como um cara que se meteu com gente barra pesada. É constantemente associado a violência gerada pela incompreensão de diferenças. Fala de democracia, mas bate em quem não concorda. Defende a independência dos trabalhadores, mas se torna um aliado quase canino da oficialidade (dizendo que o kirchnerismo é anti-liberalismo e mostra a presença forte do Estado). Suas polêmicas , por mais que em algumas alguma razão tinha, sempre jogaram contra ele. De Angeli, pelo contrário, é visto como o famoso homem comum argentino, do povo, mais que isso, do campo, que aqui tem a imagem cristalizada como o setor que mais ajudou o país a sair da crise com sua dedicação e produção quase altruístas. Surgiu na luta contra bancos que queria desapropriar a gente da terra, se meteu na legítima luta ambiental por seu país e ajudou a expulsar La Rua da casa, mesmo contra seu último suspiro tirânico de mandar prender.
Delia é um homem grosso, mesmo, que fala atacando a qualquer um, com um toque de mafioso inegável no rosto, o inflamado-violento. De Angeli , embora passional, é o que inflama e chama a luta pela justiça como conceito, não para favorecer tal governo ou tal entidade. Não tem um dente (parece que agora visitou o odonto), cara rasgada de trabalhador mesmo, às vezes engasga ao tentar falar difícil, mas é inegável sua transparente espontaneidade e carisma. Delia vem acusando a imprensa de golpista, protagonizou uma cena dantesca (embora corajosa) ao xingar o que seria um william bonner aqui, em seu próprio programa, ao vivo, no auge da primeira parte da crise e ao vociferar ainda mais contra a empresa dona do Clarin e da TN (mais importantes veículos jornalisticos do país. Um impresso, outro tv) de mentirosa, safada e corrupta. Sua bronca com os meios de comunicação só pioraram nesses dias. Já não sobra pra ninguém. Em suma, ele é odiado pela imprensa. De Angeli , pelo contrário, está de forma ubíqua nos meios, responde a todos com sua cara de bolacha fofinha, não xinga ninguém, claramente fala o que pensa na hora e chama sempre pelo diálogo. Se Delia foi execrado publicamente ao ser pivô de uma agressão , da parte de sua galera da FTV , à população (essa, real) que foi à Praça de Maio no primeiro panelaço/cacerolazzo/buzinaço/assobiazzo da crise, De Angeli quase foi alçado a mártir ao ser preso há poucos dias pela polícia federal em meio a um protesto pacífico (num erro grosseiro de tática política do governo).
Embora haja muita coisa por trás dessa construção da imagem de um homem do campo de De Angeli, a conjuntura e o contraste com as ações políticas e armadas de Delia e Kirchners, apequenam possíveis contradições e articulações da Sociedade Rural e dele mesmo. Até deixa em menor grau os supostos atos violentos cometidos nas estradas contra policiais. Para o povo, é um pai de família que quer acabar com essa pendenga e voltar a capinar a sua sojinha em tranquilidade. Como disse um sociólogo essa semana na televisão, há um ar de guerra nos discursos. Parece que um lado tem que vencer o outro. E numa democracia isso não pode acontecer. Para exemplificar a separação desses dois personagens nesse ponto exato, Delia cria um neologismo transmoderno ao falar de "golpe econômico" e "defender o governo nas ruas", em tom claramente bélico, como se a discordância fosse intimidação. No mesmo dia, De Angelis, em entrevista longa a C5N, chama a senhora presidenta pelo nome, faz cara de cansado e diz que só quer o melhor para o país, que está todo ouvidos, que não quer nada com a Casa Rosada e que só precisa voltar a plantar suas coisas.
Para finalizar, não sei o que pensa os K sobre a presença de Delia em seus braços governistas. Ainda mais nessa época de confrontos e de tremendulência internacional. Fato é que ele traz mais pólvora e está se convertendo numa espécie de inimigo tanto para o povo, representado pelo campo, quanto pela classe média que apanhou de seus militantes e o vê como uma figura quase demoníaca e intransigente.
Cris "hermosa" Kirchner vai levar a patota toda pro congresso nacional, ou seja, a decisão sobre as taxas de retenção à produção agrícola , na mão dos deputados e senadores. Embora a discussão agora chegue nas mãos brancas dos lobbies, dos acertos e do trampolim eleitoral que se converteu a questão, ainda se falará muito de Delia e De Angelis. Dois homens que se tornaram rostos quase antagônicos de um mesmo debate e que mostram quantos modelos de rostos pode ter um país.
Hoje, quarta-feira, dia 18/6, o governo convocou uma manifestação de apoio a Cristinana Praça de Maio.
Delia estará à frente de tudo em suas vociferações anti-golpistas.
Não sei se por acaso, mas De Angelis, a essa hora, disse que estará rezando em alguma igreja pedindo por paz.
**** Uma história curiosa é que o Governo é acusado de começar uma ivnestigação contra De Angeli. Para achar algo em seu passado. O que seria um ás na manga virou uma piada sem graça para o oficialismo. É porque descobriram que, na época que estava sendo despejado de sua pequena fazenda por estar todo endividado, o líder do paro achou e devolveu uma maleta com um monte de dinheiro para um ricão de sua província. Perguntado pela oportunidade perdida de salvar sua terra da desapropriação, respondeu simplesmente: "o dinheiro não era meu". Mais um ponto na criação de um mito nacional.
sábado, 14 de junho de 2008
SAMBA RARO

O meu amor por samba esbarra na pouca seriedade com que é levado pelas mentes brilhantes e asfálticas do meu país. A geração rock indie tênis vermelho é a que domina os cadernos bês de nossos jornais e as revistas especializadas. Muitos acham que samba é bloco de rua no carnaval, zeca pagodinho no churrasco ou joguinho de sinuca na Lapa numa sexta. Não entendem que o samba é tudo que se tem pra saber sobre música e sobre alma.
Acontece que sambas antigos, gravações originais, raros (e nem tanto assim. Um Martinho da década de 80 não é o que podemos chamar de raridade) são bem difíceis de achar na vida real e na Internet. Na minha febre de vinis, catei muitos num sebo localizado na Carioca no Centro do Rio (reduto de alguns bons djs que se dedicam a isso). E daí veio muito do pouco que conheço. Os discos ficaram no Brasil, mas a febre não.
Pesquisei por dias na Internet. Não achava nada sobre samba que valesse a pena baixar e que já não tinha baixado. Mas aí, numa jogada do destino, achei uma mina de ouro. Trata-se do Blog Prato & Faca.
Lá estão disponibilizados para download discos muito bons, alguns de Ismael Silva (quase impossíveis de achar), Paulinhos do início da carreira, Candeia, até Carlos Cachaça. Ainda não são muitos, mas o acervo parece que está crescendo. Que mais iniciativas como essa decolem.
Aí vai uma dica. Diferente desse que vos fala, um blog que realmente vale a pena de ser acessado.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Se segura, malandro!
Com os olhos embotados de lágrima e espanto, descobrimos o genial cinema brasileiro através de um filme que está completando 30 anos de seu lançamento. Trata-se da obra-prima "Se Segura Malandro".
É tarefa difícil , para quem não o conhece, dizer sobre o que se trata. Tentaremos. É uma mistura de absurdo com o absurdo da brasilidade. O nonsense do cotidiano brasileiro contado de uma maneira magistral, ao mesmo tempo cômica, inteligente, pastelão e triste. É um apanhado quase teórico do conceito da malandragem, da lei de Gérson, da passagem pelo acostamento dos brasileiros, da hipocrisia cidadã , imortalizados e tematizados criticamente por Hugo Carvana em suas obras.
O eixo principal do filme é baseado no programa de uma rádio ilegal, que dá nome ao filme, comandado por Paulo Otávio (Hugo Carvana) que mais parece parece um imperador de pijamas em seu esconderijo. É como se fosse uma espécie de malandro mais mórbido e vingativo. Uma segunda face do malandro Dino, eternizado por ele nos dois "Vai Trabalhar, Vagabundo" . O slogan da rádio é "sorrindo se chega mais fácil ao meio do inferno". E é "feito para todos aqueles que estão com a corda no pescoço — se você foi despedido pelo seu patrão, nos procure: se sua mulher lhe trocou pelo vizinho, não chore; nos procure que nós lhe arranjamos outra. Bom dia, seu Gonçalves, cuidado para não perder a hora! Vamos acordar, minha gente!".
A sua única repórter é Calói Volante (Denise Bandeira), que passeia pela cidade com uma bicicleta cheia de parafernálias narrando os acontecimentos locais e costurando as histórias do filme. Sempre fugindo da polícia, vai expondo de maneira cômica os acontecimentos. A rádio, além de contar o que passa, inventa coisas para botar ainda mais confusão na história. Como a promocao do Hotel Copacabana, que chamou a todos os mendigos da cidade a irem para frente do hotel pedirem um prato de comida, gritando a senha "Borboleta azul".
O filme também aponta seu canhão crítico para o cotidiano e mínimo. Em uma atuação inigualável de Lutero Luiz (que já havia nos brindado com seu talento em "Vai Trabalhar" como o bêbado que, junto a Pereio, protagonizou a cena da fuga do hospício, para nós, uma das melhores do cinema nacional), vê-se a história de Alcebíades, um funcionário exemplar de uma firma que, no dia que vai receber um premio por seus 30 anos de serviço, resolve expor toda a mediocridade e abuso que recebeu durante esse tempo (ao receber o relógio de ouro que o premia, seu chefe ao pegar do bolso, se lambuza com o brigadeiro que haviam deixado ali de sacanagem. O relógio vai todo cagado para Alcebiades. Uma mistura de humor “fácil” e critica embutida). Para isso, seqüestra o elevador da firma. É isso mesmo, o elevador (com a presença do eterno Wilson Grey como ascensorista). Acontece que, no decorrer da história, torna-se uma espécie de herói anti-capitalismo-rotina e , apesar de alguns reféns quererem sair, muitas pessoas passam a querer entrar em seu elevador “revolucionário” para fugir da loucura do dia-a-dia e sua firma passa a receber jornalistas (incluindo a Caloi Volante) e multidões querendo acompanhar o desenrolar do sequestro. Um dos personagens que entra é o Presidente da Sociedade Brasileira de Neuróticos , que proclama Alcebíades como o rei dos neuróticos e transforma o elevador em um inferno maior ainda (atuação impagável de Henriqueta Brieba como uma velhinha inocente que sofre mais que todos).
O filme ainda é recheado de personagens geniais. Um deles é Zatopeck, o assaltante , interpretado por Claudio Marzo. Trata-se de um gatuno galã que assalta a mulheres usando seu charme e seu enorme 45. Além disso, está sempre vestido com roupa de cooper da Adidas (da Adidas mesmo). Por quê? Para a polícia nunca desconfiar por que está correndo.
A crítica social do filme fica mais clara com o núcleo "mais sério" da obra, representada pela relação de um intelectual de esquerda com a favela. O intelectual, economista, é Candinho, interpretado por Helbert Rangel. Ele e sua esposa precisam morar em uma favela para conseguir um cargo nas empresas de seu pai. Passa a acreditar mais ainda na mobilização das massas e de seu papel como líder intelectual para guiá-las e resolve ficar lá para sempre, pelo menos até operar a suposta revolução. Acontece que o tempo vai passando e ele passa a ser explorado pelas pessoas. Visto como estrangeiro e com estranheza, sua boa vontade é brindada com desdém, ironia e e os moradores abusam de sua santidade esquerdista. Em uma cena que resume muito do que pensamos sobre essa questão, seu pai, interpretado por Milton Carneiro (infelizmente apenas lembrado como o inspetor da Escolinha do Prof Raimundo), manda dar ou descer. Ou eles sairiam da favela imediatamente ou ele nunca mais daria para eles. Estariam "condenados" a viver na favela e serem pobres. O intelectual, adivinha, antes flamejante e cheio de vozes, abandona a comunidade.
Outro núcleo do filme é interpretado pelo casal Laurinha (Louise Cardoso ) e Romão (Paschoal Villaboim). Formam um casal de imigrantes nordestinos que tentam se virar na cidade grande. Ele visa sempre as pequenas armações, as mutretas. Ela tenta manter a sua integridade na vida difícil que passam a levar (diferente do sonhado quando saíram do Nordeste), embora trabalhe de stripper e massagista para conseguir uma grana. Acontece que a pobreza cansa e eles passam a roubar cachorros e devolver a seus donos. Com o dinheiro da recompensa, vão ficando ricos e acabam montado uma empresa com esse "serviço". Além deles, há um personagem muito felliniano, interpretado por um morto. Sim, um velhinho morto em uma cadeira de rodas (que morre após ter se excitado com sua "babá", a própria Laurinha) que vai sendo carregando por diferentes personagens, rodando pela cidade, sempre cruza com o curso da história e até arranja uma namorada, também uma velhinha de cadeira de rodas (mas viva).
O final do filme é uma sugestão clara , mas simples, eficaz e dá os créditos de maneira original. É quando se chocam duas supostas ambulâncias que levam loucos para o sanatório. Dos carros saem quase todos os personagens e o pessoal da equipe técnica. Tudo ao som de Feijoada Completa, de Chico Buarque (a trilha é quase toda dele, com a junção de músicas de João Bosco e Mário Lago). A harmonização perfeita para um filme único.
“Se segura malandro” infelizmente caiu numa espécie de esquecimento da arte brasileira (pelo menos os jovens já não reconhecem tanto). Esse esquecimento é acompanhado do pouco valor que se dá a Hugo Carvana como um pensador e realizador fundamental para que se entenda os movimentos de nossa sociedade. Dotadamente carioca, com um toque suburbano, quase Aldir Blanc na linguagem, Carvanão universalizou a malemolência dos malandros do país, os dotou de crítica, corpo e profundidade. Mostrou, através da única linguagem que o brasileiro culto e inculto parece entender, a do absurdo, que o único jeito é sorrir mesmo porque, como aponta o seu inesquecível programa de rádio, “já chegamos ao inferno”.
Grito 1: Pra quem quiser ver: é se ligar na programação do Canal Brasil, único lugar onde passa atualmente.
Grito 2: Quem tiver fotos em alta, vídeo etc, bota no youtube, divulga, reparta o pão. Não há nada sobre o filme nessa grande , e às vezes ínfima, Internet.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Carrinhos de bate-bate

Parece que as grandes marcas de automotores se renderam à "solucao verde". Em plena crise do preco do petróleo e inegável degradacao ambiental de nosso planeta, os bem-sucedidos , geniais e dinheiristas (mas desumanizados) empresários da área , comecarao a produzir carros elétricos e/ou mais ecologicamente corretos.
A folha da pamonha está em achar que tudo isso é pelo senso coletivo e de bem-estar social desses homens e mulheres. A decisao vem para se esquivar de uma possível (e provável) falta de combustível no mundo todo e pelo apelo de uma solucao ecológica para a consciencia dos consumidores. A pressao aumenta. Ser tao capitalista já nao vai ajudar tanto a ter capital. Ser green é legal, dá dinheiro e respeito. Segundo o estudo da KPGM, o interesse dos executivos dessas empresas por carros elétricos cresceu 65% de 2006 para 2008.
A idéia é que esses carros sejam movidos à bateria de ions-lítio, usada em celulares e laptops. Além disso, rola o boato que , em 2012, a Comissao Européia pode pedir para que a emissao de CO2 dos modelos nao supere a 120 g/km (atualmente , um carro comum lanca 160g/km). Segundo o El País, um executivo da Renault disse recentemente que "produzir carros economicos com emissao zero de co2 é o objetivo mais importante que a indústria automobilística pode alcancar". Rick Wagoner, presidente de General Motors, disse também que "impulsionamos a diversidade energética a um ritmo e com uma dedicacao sem precedentes". Exemplo disso é que já está aprovado o orcamento para o Chevy Volt, um carro movido a gasolina e eletricidade. E, para acabar de vez com as dúvidas, a GM anunciou que até 2010 fechará algumas fábricas de caminhoes e veículos de grande porte. Tudo visando a producao de carros de baixo consumo. Alguns especialistas ainda acham que se a China anunciar incentivos fiscais, a producao (ve-se exploracao da mao de obra chinesa) vai disparar.
Pode parecer incrível, mas a previsao é que em dois anos já comecem a aparecer os primeiros carros. A Nissan lancará um em 2010 (Japao e Estados Unidos). A austríaca Magna Steyr, que produz os Jeep Commander e Chrysler Voyager, comecará a produzir em 2009 as baterías de ión-litio para uma marca de automóveis ainda nao revelada. O italiano Pininfarina vai lancar um mini-carro eléctrico de luxo em 2010. Nos Eua, a Telsa Motors já produz o Tesla Roadster 100, um modelo esportivo, de potencia e elétrico (para pegar o público masculino que troca a paixao pelo sexo pelo amor ao carro).
Tudo mostra que os carros elétricos estao chegando. Mas , como nada nesse mundo empresarial é bonito, resta saber como se dará isso pelo lado humano. Até que ponto esse afa vai interferir negativamente na mao-de-obra (principalmente dos países em desenvolvimento, onde estao muitas fábricas), que tipo de interferencia ecológica vai haver com a producao desses carros, que concessoes essas empresas vao dar para suportar a pressao do lobby petroleiro (que nao vai querer perder a bufunfa recebida pelo consumo de combustível) e a luta desse mesmo lobby contra o lobby das empresas de informacao (Google, Ebay, etc) , que já se converteram em bons investidores de tais modelos.
Voz Espanha
Voz Eua
Voz Comissao Européia
domingo, 1 de junho de 2008
Experiência Colombiana

Entrevista muito interessante com o jurista colombiano de Rodrigo Uprmny, ex-integrante da Corte constitucional de seu país, ao Clarin. A Colômbia, desde 1957, tem uma experiencia de independencia judicial única no continente. Acontece que o Poder Judiciário lá se isolou das influências dos partidos políticos. No passado, a Corte Suprema elegia seus próprios substitutos. Que por sua vez escolhiam os magistrados dos tribunais coletivos e, estes, aos juízes. Isso a dotou de interessante independencia. O lado negativo é que surgiu uma espécide de aristocracia judiciária e formas de clientelismo judicial interno. O que, em 1991, foi em certa forma corregido com a substituição da indicação por concursos e uma carreira judicial (ao menos nos tribunais superiores). Polemicas a parte, fato é que na Colombia há uma independencia saudável do sistema jurídico com relacao às pressoes políticas. Por isso a importância da formação cidadã, instituicional e política dos juízes.
O grande pulo do gato é a agilização de alguns processos. "Qualquer cidadao pode apresentar uma ação de amparo ante qualquer juíz caso sente que seus direitos fundamentai não foram respeitados. Pode apresentar-se diretamente, sem advogado e, inclusive, verbalmente. O juiz tem que tomar a decisão em , no máximo, dez dias. A apelação tem que transcorrer também de forma rápida. Isso aproxima muito o cidadão do processo judiciário".
O que acontece também é que um juiz tem o direito de decretar uma lei como inconstitucional e, aí, a proibição ou autorização (de acordo com o caso) pode ser aplicado em outros casos em que essa lei é envolvida, não necessariamente no caso julgado (principalmente nas ações populares, como por exemplo contaminação ambiental de uma pequena cidade). O interessante é que se obriga a aplicação da lei por essas decisões. E a experiência na Colombia mostra que elas estão sendo aplicadas. "O que não acontece no país é rebeldia clara contra as decisões judiciais. Quando uma norma é declarada inconstitucional, ninguém mais a aplica. Mas, quando se dão as ordens contrárias, de fazer algo, aí sim há muita discussao e polemica pelas decisoes da Corte. Ainda mais atualmente com essas investigações com grupos paramilitares e partidos políticos. Mas isso é parte da democracia colombiana. Mesmo precariamente mantém o conceito de quando uma decisão é tomada, é acatada. Nem sempre se cumpre, mas ao menos é aceita".
Mesmo com essa experiência, Uprimny reconhece que um juiz sozinho não é o suficiente para um azeitado sistema de acesso à Justiça. "Tem que entrar também os poderes políticos e dos cidadãos na aplicação dessas leis".
E enumera algumas ações para melhorar a Justiça na América Latina: "Primeiro, há que se ter a garantia de independência do sistema judiciário. Segundo, há que ter uma pressão de suas competências para fortalecer sua intervenção na proteção dos direitos. Terceiro ponto, e a Colômbia tem se esforçado nisso, é tratar de superar a lentidão de algumas práticas judiciárias, recorrendo a juízos orais, ou de outra natureza, que sejam mais rápidos ou mais próximos da população. O que está ligado a um quarto ponto, de assegurar mecanismos de forte acesso da população. E um último, mais polêmico (mas que comparto) é gerar outros espaços de resolução de conflitos, para que nem tudo chegue à Justiça e ela possa se concetrar nos pontos mais trascedentais. Mas isso de varia de país para país".
No Brasil, onde a pressão política (aliada à pressão empresarial) é quase sempre nociva, essa experiência não seria ideal ? E , para garantir juízes comprometidos com decisões cidadãs, não era necessário apostar na vigilância da formação desses juízes? Um terceiro poder, civil, pra controlá-los? Muito para discutir. E muito para aprender com a experiência do país vizinho.
Voz Clarín
Outra voz

